Realinhamento, acolhimento e reconforto: minha primeira vez numa sala sensorial
Relato pessoal da primeira experiência numa sala sensorial de aeroporto, escrito por um autista com diagnóstico tardio. Do apego à previsibilidade que por anos me impediu de acessar o espaço até a percepção de que ali havia um gesto concreto de compreensão do Estado e da sociedade para com quem não é neurotípico, passando pelo masking, pela hipersensibilidade auditiva e por um laço de fita roxa que virou símbolo.
Realinhamento. Acolhimento. Reconforto. Foi minha primeira experiência da vida pós-diagnóstico numa sala sensorial. Minha psicóloga sempre me indagou, em diversas ocasiões nas quais eu poderia ter tido acesso a uma dessas salas, se efetivamente havia experimentado. Nunca o havia feito, muito por conta do apego a vivências e dinâmicas já previamente conhecidas – o que, por sua vez, decorre da soma de certa rigidez cognitiva e da necessidade de previsibilidade. Porém, após determinada sessão com minha fonoaudióloga, em que ela também me indagou sobre a experiência de já ter acessado ou não uma sala sensorial, considerando: i) o fato de que a duração da conexão do voo até Aracaju duraria mais de uma hora; ii) o desconforto que sempre sinto em aeroportos – principalmente os grandes e movimentados, como de Brasília, Guarulhos, etc; iii) a facilidade de acesso ao desembarcar; iv) e o fato de que meus fones com cancelamento de ruído estavam prestes a descarregar em meio ao estresse sensorial dum aeroporto com intenso fluxo… Dirigi-me à sala sensorial do Galeão. E, para muito além do que pude experienciar com minha sensibilidade sensorial – especialmente auditiva, a qual explorarei mais adiante –, o que se sobressaiu, quase que de imediato (mas que só processei o vivenciado após certos minutos de autorregulação na sala), foi a tríade de palavras que inauguraram este relato. Realinhamento. Acolhimento. Reconforto. Por que demorei tanto: aeroportos, rotina e o diagnóstico somente em 2024 Creio que seja válido mencionar, de antemão, que, minha experiência com aeroportos, apesar de, atualmente, poder categorizar como recorrente, não é tão antiga. Em verdade, meu primeiro voo foi no ano de 2018, ao lado de minha prima, quando retornávamos de uma turnê da Camila Cabello. Foi somente a volta. Após isso, só retornei ao aeroporto no ano de 2021, na pandemia, para sondar a experiência do que viria a ser uma prova real de Defensor Público, no Rio de Janeiro. Naquele ano, fui sozinho pela primeira vez. E, desde o final de 2021 (TJGO – analista) até a presente data, essa circunstância se tornou recorrente e eu passei a ter minhas próprias ferramentas – inconscientes – de autorregulação. Portanto, para que fique claro, a resistência de acesso à sala anteriormente à data de hoje partiu de um lugar de apego a dinâmicas surgidas da situação pautada pelo desconhecimento de que eu era autista – o que só veio a mudar no ano de 2024, cuja investigação começou a partir de sutis direcionamentos de um ex-namorado que cursava fonoaudiologia somado ao acesso de diversos relatos de pessoas com diagnóstico tardio de Transtorno do Espectro Autista (TEA) (especialmente de uma atriz global, que apareceu numa reportagem do Fantástico naquele ano relatando o que ela vivenciava e como descobriu o autismo). Feito esse esclarecimento, mesmo que você seja uma pessoa neurodivergente que, assim como eu, possui apego excessivo à previsibilidade e rotina, o que posso lhe assegurar é que vai ficar tudo bem se você romper temporariamente o seu ciclo de conforto rotineiro. Aliás, não. Não ficará bem. Ficará melhor. Pode ser que você se SINTA melhor. A entrada: o que acontece quando a porta se fecha Ao entrar na sala, sem saber lidar com o ineditismo da situação, perguntei à funcionária do aeroporto (Isa – muito solícita e gentil, diga-se de passagem), que estava sentada na cadeira da área de entrada da sala sensorial, se existia alguma regra, como funcionava e que era minha primeira vez. Ela gentilmente me explicou tudo e me conduziu apresentando o espaço. Após, me acomodei na poltrona acolchoada mais larga de um dos ambientes da sala sensorial. A sensação foi de estupor. Logo ao fechar a porta da sala do ambiente, o excesso de estímulo sensorial que sempre vivi em aeroportos (principalmente no aspecto sonoro e visual), fizera-se ausente. Eu me senti abismado ao refletir instantaneamente sobre o quanto aquilo me fazia bem, sobre o quanto demorei para ir a uma sala sensorial e sobre como a sala representa um aspecto de compreensivo da sociedade e do Estado para com quem não é neurotípico. Por um momento, senti uma breve vontade de chorar por me dar conta de tudo isso, de uma só vez. Todo o nó e estresse mental-sensorial que sempre eram desencadeados no aeroporto – principalmente se envolvesse conexões – agora passam a ser desamarrados numa espécie de refúgio nesse mesmo espaço que, por tempos, sempre me gerou repulsa pelo ritmo frenético de tudo que o envolvia. "Autism